Blog de Bareta da Viola


09/01/2011


A lenda do "violeiro" que tocava "rio abaixo".

Reza a lenda que no norte de Minas, às margens do rio  Urucuia que foi tema do livro "Grande Sertão - Veredas" do consagrado escritor João Guimarães Rosa, nas noites de sexta-feira, próximo à meia-noite, um misterioso pirangueiro descia rio abaixo em sua canoa, ponteando sua viola em uma afinação desconhecida na região até então...

A população ribeirinha tratava de fechar portas e janelas de suas cabanas e se punham a rezar ao ouvir o ponteado daquela viola misteriosa... um ponteio diferente... um "toque" nunca antes ouvido que enchia aquele povo simples de pavor e admiração pois a viola sempre foi um instrumento típico do meio rural desde os tempos da colonização; Foi trazida de Portugal para o Brasil pelos primeiros colonizadores e Jesuítas que utilizavam seus acordes harmoniosos em cantigas de roda e cânticos religiosos... Não é à toa que até hoje ela é o instrumento tradicional da "folia de reis" no Sudeste, dos "desafios" entre repentistas no Nordeste e das polcas, guarâneas e raqueados do Centro-oeste... O violeiro de antigamente gosava de um certo "status" na sociedade daquela época, era convidado tanto para as festas religiosas como para os "desafios" e "arrasta-pés" do sertão... Mas naquela região do Urucuia algo de sobrenatural estava acontecendo...

Aquele "violeiro" não era deste mundo... ninguém em sã consciência desceria religiosamente nas noites de sexta-feira rio abaixo ponteando a viola naquela escuridão com tanta naturalidade e maestria... Logo boatos começaram a circular: o misterioso violeiro não era ninguém mais que o próprio "dito cujo", o "capiroto", o "tinhoso" em pessoa que descia rio abaixo à procura de violeiros com coragem suficiente para desafiá-lo... ou quem sabe à procura de moças desavisadas, apaixonadas pelo ponteio da viola que até hoje "encanta" tanta gente...

E esse boato rendeu muitas "histórias e causos"... Mas o fato é que os violeiros daquela época remota acabaram "pegando de ouvido" aquela afinação e a batizaram de "afinação rio abaixo" ou "afinação do capeta" como alguns preferem... Em todas as regiões do Brasil, várias afinações foram criadas, algumas "alteradas" ou com diferentes nomes, mas nenhuma possui o "encanto e o mistério" da afinação rio abaixo. Junto com a afinação "cebolão" é uma das mais utilizadas por nossos violeiros cantadores.

Fato curioso é que lá nos EUA muitos "guitar man" do velho "blues" americano afinam seus instrumentos (guitarras e violões) nesta afinação... E lá também não faltam histórias misteriosas como o suposto "pacto" do famoso Robert Johnson na encruzilhada... Mas isso é uma outra história... 

 

Escrito por Bareta da Viola às 22h39
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01/10/2010


Caros Amigos, visitem minha página no site  voaviola.com.br  Obrigado pela presença de todos que prestigiaram nosso show na Associação dos Servidores Públicos de Santo André, não pude atender todos os pedidos mas acreditem que na próxima tentaremos variar mais o repertório (mais ainda), tem muita gente cobrando para que eu e o Canuto interpretemos serestas e aqueles sambas antigos... Aguardem... Beijo no coração de todos.

Escrito por Bareta da Viola às 01h14
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02/09/2010


Show Sertanejo em Santo André

Compareçam ao meu show dia 17/09/2010 à partir das 20:00 h, na Associação dos Servidores Públicos de Santo André, fica na Rua Igarapava nº 269, ao lado do Canil Municipal. Entrada Franca. Prestigiem Bareta da Viola e Canuto, a dupla mais eclética do Grande ABC. Inocente

Escrito por Bareta da Viola às 14h03
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30/08/2010


Caros amigos

Visitem minhas páginas no site   sobrenatural.org  e   violeirosdobrasil.ning.com   Abraço a todos.

Escrito por Bareta da Viola às 00h53
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31/03/2010


Aguardem novidades para esse ano de 2010. Desde shows até novos relatos. E não se esqueçam de acessar baretadaviola.fotoblog.uol.com.br 

Abraço à todos e um 2010 cheio de relizações.

Escrito por Bareta da Viola às 11h15
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12/11/2009


Em Capela "até o santo da igreja atira"!

No dia 25 de novembro de 1929, após breve passagem pelo município de Nossa Senhora das Dores, onde não permitiu nenhum abuso contra seu povo, Lampião entrou em Capela, cidade vizinha a Dores, pois desejava ver a estação férrea e conhecer o cinema.

Lampião estava de bom humor nesse dia; quando estavam em Dores, seus cabras pediram para “armar” um baile, pois na época Dores tinha fama de ser “terra de mulher bonita”, ao que respondeu rispidamente: “Aqui hoje não se dança!” Minha avó Valdira Vieira Souza conta que era menina quando Lampião esteve em Dores e que seu pai deu ordens para ela e as irmãs se trancarem dentro de casa e não saírem de jeito nenhum, porém a curiosidade fez com que espiassem pela fresta da janela a chegada dos cangaceiros com seus chapéus quebrados na testa e suas cartucheiras cruzadas no peito. Inclusive ela relata que uma jovem cujo nome ela não se lembra, tinha fama de ser “meio doidivanas” e foi até Lampião perguntar seu verdadeiro nome, o capitão respondeu “Apois meu nome é Virgulino Ferreira da Silva”, em seguida ela doou várias jóias de família para o cangaceiro alegando que o mesmo era merecedor, pois era um “homem de bem”. O único abuso relatado por minha avó se deu fora da cidade, um jovem que foi castrado por Lampião por não “colaborar” com o bando fornecendo informações sobre a localização exata de Dores e quantos soldados defendiam a cidade. Minha avó contou-me também que naquela época o povo sergipano temia muito mais o capitão Corisco, o “Diabo Loiro”, do que o próprio Lampião, pois este era muito mais cruel com os sergipanos.

 Ao adentrar na cidade Lampião mandou chamar o prefeito e o delegado e ordenou que trancafiassem os poucos soldados que havia na delegacia para que “seus meninos” não aprontassem nada com eles. Pediu para o prefeito reunir os comerciantes da cidade e recolher uma “pequena doação” para que pudesse partir em paz do mesmo jeito que havia chegado, no que foi prontamente atendido. Após algumas horas pacíficas em Dores disse que dali partiria para Capela e que se viesse alguma volante da Bahia em seu rastro, que não indicassem seu paradeiro senão voltaria e aí sim “a desgraceira” estaria feita.

 

Em Capela não foi diferente. Adentrou na cidade gritando alto: “É Lampião que vai entrando – amando, gozando, querendo bem.”.

Foi ao cinema e, com o filme em andamento adentrou e gritou para todos: “Não quero “arteração”, daqui ninguém sai, está aqui Lampião!”.

Acenderam-se as luzes e gritou novamente: “Quem corrê, morre!”.

 Ordenou aos músicos que continuassem tocando para que pudesse assistir ao filme.

Foi conhecer a estação férrea, onde perguntou a um policial que desembarcara do trem se o mesmo pertencia à polícia baiana ou sergipana:

 

__ Sou da polícia sergipana capitão.

__ Ainda bem, pois se fosse da força baiana ia ser sangrado agora mesmo! Suma logo daqui, pois algum dos meus meninos pode querer “aprontar” alguma com você.

 

Lampião estava mesmo “feito arroz doce” naquele dia.

Entrou num bilhar na praça do mercado, onde pediu todas as latas de sardinha e goiabada que estavam na prateleira e bebeu várias espécies de bebidas com seus cabras. Pagou generosamente por tudo que pediu.

Comprou uma capa de borracha e um Parabellun (como era chamada à pistola alemã Luger 9 mm) na casa do comerciante Jackson Alves de Carvalho, que lhe ofertou um exemplar do livro “A Vida de Jesus” da escritora Ellen G. White, segundo Billy Jaynes Chandler (o escritor sergipano Ranulfo Prata em seu livro Lampião, afirma que o livro citado foi “Vida de Cristo” de Papini).

Foi também a um “cabaré” (casa de meretrício) como dizem os nordestinos, onde passou algumas horas de “lazer” com uma “dama”. Enfim, retirou-se da cidade sem nenhuma “arteração”, com a promessa que voltaria algumas semanas depois para receber uma alta quantia dos fazendeiros locais para sua “proteção”. Os mesmos alegaram não dispor da quantia alta pedida pelo capitão, pois necessitavam de alguns dias para levantar o valor junto à todos os fazendeiros e comerciantes.

Mas Capela também tinha homens valentes e de “sangue nos olhos”. Os fazendeiros locais reuniram-se e prepararam seus “cabras” para recepcionar o rei do cangaço em seu retorno. Espalharam “jagunços armados até os dentes” por toda cidade, armaram barricadas e alguns homens armados com rifles e fuzis foram posicionados na torre da igreja que era o ponto mais alto da cidade, portanto um ponto estratégico para os “snipers” sertanejos.

Lampião foi avisado da “calorosa recepção” que o aguardava na cidade e ficou furioso, deu ordens para a invasão e investiram sobre Capela sedentos de sangue. Foram recebidos por uma “chuva de balas” tamanha que saíram correndo desnorteados para nunca mais voltarem. Segundo a tradição oral, a humilhação do rei do cangaço foi tanta que proferiu aos berros a seguinte frase ao bater em retirada:

 

__ Nesta terra amaldiçoada não ponho mais os pés, pois até o santo da igreja atira!

Escrito por Bareta da Viola às 23h21
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Lobisomens

Em todas as mitologias do mundo existem histórias de homens que se transformam em animais ou feras sobrenaturais como é o caso dos lobisomens. Na Europa, homens-lobos (ou lobisomens), na África homens-leopardos, o boto que se transforma em homem para seduzir as moças das vilas ribeirinhas no Amazonas e assim por diante conforme a cultura de cada região.

No Brasil a lenda do lobisomem, ou seja, de homens que se transformam em lobos foi trazida pelos portugueses na época da colonização e tomou características próprias em cada região do país. Desde tempos remotos, a figura do lobo assombrava o povo europeu por se tratar do maior predador do velho continente. Na Idade Média, uma lenda arturiana sobre um cavaleiro da távola redonda chamado Bisclavret, que se transformava em lobo nas noites de lua cheia, foi muito difundida na Grã-Bretanha e posteriormente em toda Europa (Gilles Massardier, Contos e Lendas da Europa Medieval). Em 1764, na região de Gévaudan na França, a aparição de um terrível animal conhecido como “a Fera de Gévaudan” veio aumentar o temor dos europeus e sua crença em lobisomens. Segundo testemunhas, a fera era “bem mais alta que um lobo e possuía garras nos pés; a pelagem era avermelhada, a cabeça grande, e o focinho parecia o de um galgo; as orelhas eram pequenas e retilíneas; o peito era largo e cinzento; as costas, raiadas de preto; a boca grande tinha dentes afiados”. Essa “fera” matou mais de sessenta pessoas entre junho de 1764 e 19 de junho de 1767, quando um caçador chamado Jean Chastrel, que tivera o cuidado de municiar sua arma com balas de prata, acertou-a no coração, matando-a. O estado gastara 29.000 libras, uma fortuna na época, no intuito de matá-la. Várias foram as ocasiões em que soldados e caçadores alvejaram-na sem resultado, aumentando a crença de que se tratava de um Loup-garou (lobisomem). Infelizmente a carcaça da “fera” não pôde ser enviada à Versalhes para estudos; foi enterrada devido já estar em estado adiantado de putrefação, após ter sido exibida na região (Jerome Clark, Enciclopédia do Inexplicável).

Aqui no Brasil, o nosso lobo-guará é inofensivo ao homem, pertencendo mais à família das raposas do que dos lobos propriamente ditos.

Em algumas regiões brasileiras comenta-se que se um filho for amaldiçoado pela mãe ou pelo pai, antes do nascimento, o mesmo se transformará em lobisomem; Em outras paragens, comenta-se que se um casal tiver sete filhos homens, o mais velho deve batizar o mais novo para livrá-lo da maldição, ou ainda, oferecer uma xícara de sal ao lobisomem para “quebrar o encanto”. Algumas famílias que se atreveram a não respeitar a tradição oral do povo pagaram caro pela descrença.

 

Conta-se que em Propriá, uma família não deu ouvidos aos apelos dos vizinhos, não batizando o sétimo filho homem; dizem que o menino chamado Pedro, ainda criança começou a se metamorfosear em “bicho”, sempre fugindo para os matos, o que lhe rendeu o apelido de “Pedro Vira-bicho”; O irmão mais velho, seguindo o conselho de pessoas mais velhas e crentes, seguiu o irmão mais novo e o sangrou no braço no momento em que estava se “transformando”, utilizando uma faca virgem “para quebrar o encanto”, livrando o mesmo da maldição.

 

 

Outro suposto lobisomem sergipano era apelidado de “Zé Grilo”, residente num vilarejo chamado Cedro de São João, próximo à Propriá; conta-se que constantemente visitava as “fateiras” nas feiras para comer os restos dos miúdos de boi; Segundo testemunhas, se achegava e dizia para as mesmas:

-- Comadre estou com as costas doendo por causa dos chutes que voismicê me deu ontem.

 -- Mas eu nem lhe vi ontem, Zé! - Respondia a pobre fateira.

-- Aquele cachorro preto faminto, que voismicê chutou ontem era eu.

E assim sucessivamente ele ia assustando as pobres fateiras que ficavam cada dia mais “generosas” com os “vira-latas” supondo que algum deles poderia ser o Zé Grilo.

Em certa ocasião, estando numa sacaria de arroz, junto com Zé Grilo e mais dois companheiros, meu tio Manoel da Silva Santos (casado com minha tia Vandete), desafiou o mesmo a “se transformar” na presença de todos:

-- Olha Zé, ninguém aqui acredita nessa história que você “vira bicho”! Se é verdade, mostre pra gente então.

-- Vamos fazer assim, vocês esperam aqui, no centro da sala, que eu vou aqui atrás dessas sacas de arroz. Fiquem bem atentos, pois vai ser um negócio rápido.

 

Foi para trás das sacas e, num dado momento saltou no meio dos três, um “bicho preto” com a pele escura e lisa como a pele de uma foca, muito brilhosa, e saltou de volta para trás das sacas como se fosse um raio. Todos se assustaram não acreditando no que seus olhos viram. Após alguns instantes, Zé Grilo voltou em sua forma humana, rindo-se do assombro dos companheiros.

 

 

Na região de Aquidabã, segundo meu tio Manoel, havia um certo “valentão” (cujo nome foi esquecido pelo mesmo), homem bruto e de uma valentia desmedida, jagunço de uma determinada fazenda daquelas paragens; Era conhecido como “o homem que não tinha medo de nada”; costumava comentar pelas bodegas um determinado dizer seu: “Morro, mas não corro”.

Comentava-se na região que Antonio Tomaz (homem já idoso na época), se transformava em lobo nas noites de sexta-feira, percorrendo sete cidades (ou sete cemitérios, como reza a lenda). Numa sexta-feira, estavam o “valentão” e mais alguns companheiros bebendo cachaça em uma bodega quando Antonio Tomaz chegou, para constrangimento quase geral dos presentes que o temiam, por causa das lendas a seu respeito; “quase geral” justamente porque o “valentão” ao perceber que os demais se calaram com a chegada do suposto “lobisomem”, não se conteve e lançou um desafio, fazendo jus a sua fama de “cabra macho”:

 

-- Olha aqui seu Antonio Tomaz, não acredito nas besteiras que o povo fala a seu respeito sobre esse negócio de lobisomem! E nem sou homem de ter medo de nada nesse mundo! Se tu viras “bicho” mesmo, aparece pra mim hoje á noite que eu to doido pra saber se lobisomem sangra e pra mostrar pra esse povo que sergipano tem que ser “macho”!

-- Apois é hoje que a porca torce o rabo! Também to cansado de ouvir histórias a respeito da sua valentia, hoje veremos se você tem o “cunhão roxo” mesmo. Me espere na encruzilhada depois do cemitério na saída da cidade à meia-noite em ponto, mas veja bem... Leve todas as armas que tiver porque senão quem vai sair machucado será você!

Lançado o desafio, beberam cada qual sua cachaça e partiram para se prepararem para o “duelo”.

 

Houve quem comentasse que o tal “desafio” nunca aconteceria, visto tratar-se de duas lendas vivas da região: o valentão e o lobisomem.

Porém, antes da meia-noite o “valentão” já aguardava Antonio Tomaz, literalmente armado até os dentes: carregava consigo seu facão “jacaré”, seu punhal e sua “peixeira”.  

À meia-noite em ponto, um silêncio sepulcral tomou conta do lugar, como se fosse “o fôlego que se toma antes do mergulho”. “Valentão” sentiu uma estranha sensação de estar sendo vigiado e por instantes pareceu ter visto um vulto a espreitar por entre a mataria.

De repente abriram-se as portas do inferno... Saltou da mata um enorme animal preto, semelhante a um cachorro, porém muito maior, urrando como onça acuada e movendo-se com incrível agilidade para o seu tamanho. “Valentão” não hesitou nem um instante, investiu contra a criatura com o facão, sem resultado aparente, pois o bicho era realmente muito veloz. O “valentão” mal podia distinguir a aparência real do animal, tamanha a velocidade do mesmo.

Em um de seus saltos, a fera o desarmou com um “sopapo”, e o jagunço por sua vez sacou o longo punhal de mais de sessenta centímetros de lâmina, muito semelhante aos utilizados pelos cangaceiros antigamente e investiu contra o bicho. O jagunço demonstrava valentia, porém isso não impediu que a fera o desarmasse novamente, obrigando-o a fazer uso de sua “peixeira”.  

O “valentão” começou a demonstrar sinais de cansaço e preparou-se para fugir; Aproveitando-se de um salto da fera para dentro da mata, virou-se abruptamente e correu como se o próprio demônio estivesse em seus calcanhares. A fera, percebendo a manobra fugitiva do oponente, perseguiu-o até próximo da cidade, cravando-lhe as garras nas costas, rasgando-lhe a carne e retirando-se em seguida, satisfeita com a marca deixada no adversário.

No dia seguinte, o povo todo indagava sobre o resultado da peleja, devido uma certa “zoada” vinda das bandas do antigo cemitério. Próximo ao meio-dia, Antonio Tomaz adentrou na bodega com um sorriso cínico nos lábios, foi indagado sobre a peleja e apenas respondeu que “valentão” realmente era um homem de coragem e que o mesmo lhes mostraria o resultado do confronto. Alguns minutos depois chegou o jagunço, visivelmente cansado, abatido e irado ao ver o velho na bodega:

 

--Afaste-se de mim, “coisa-ruim”! Você tem parte com o “cão”! Não quero conversa com você!

-- Calma seu moço, ninguém está desmerecendo você, pelo contrário, eu estava elogiando a sua coragem, outro em seu lugar teria “borrado” as calças. Agora o seguinte é esse: tire a camisa e mostre a marca que eu lhe fiz como prova da nossa briga.

 

O “valentão” tirou a camisa e todos ficaram estupefatos com a enorme marca de garras riscando suas costas de cima pra baixo com se fosse feita pelas garras de uma onça.

Por muitos anos comentou-se na região sobre a imensa coragem daquele sertanejo que enfrentou um “lobisomem” e trazia nas costas a prova e o atestado de sua valentia.

 

 

Escrito por Bareta da Viola às 23h17
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06/12/2007


Medievalismo no Sertão

 HONRA E RELIGIOSIDADE           

 Existe  em algumas regiões do nordeste brasileiro uma saudação sertaneja utilizada quando se chega à casa de alguém: ”Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo”, grita o visitante; ”Para sempre Deus seja louvado”, responde o dono da casa. Esse “prefixo”, como chama o sertanejo, foi registrado por Luiz Gonzaga na parte declamada da música Respeita Januário e continua presente na memória de muitos sertanejos com mais idade.

Na verdade, essa “saudação” teve sua origem séculos atrás na Palestina quando da dominação cristã em Jerusalém; A mesma era muito utilizada pelos cavaleiros templários para adentrar nos castelos sob sua guarda e proteção. (FILHO, 2004).

 Atualmente, devidos estudos mais aprofundados de pesquisadores como Rainer Daehnhardt, A missão templária nos descobrimentos, Lisboa: Edições Nova Acrópole, 1993, Pedro Silva Os templários e o Brasil, Editora Flâmula, 2005 e o casal de escritores/velejadores Yuri e Vera Sanada Histórias e lendas do descobrimento-Rio de Janeiro: Ediouro, 1999 dentre outros, sabemos que a Ordem de Cristo portuguesa (remanescente da Ordem dos Templários) foi a grande responsável pelos descobrimentos e por manter os ideais templários enraizados em Portugal e em suas colônias.

Os latifúndios do nordeste à época da colonização eram semelhantes aos feudos da Europa medieval. Os “coronéis” nordestinos assim como os senhores feudais dominavam com “mão-de-ferro” suas regiões apoiados por seu “exército particular” formado por jagunços e cangaceiros que garantiam seu domínio político e social. Os cangaceiros eram grupos independentes que não prestavam “vassalagem” aos coronéis, no entanto em determinadas situações lhes prestavam “serviços” em troca de proteção (armas, munição e alimento). Barros nos diz que:

“No sistema republicano os antigos senhores da aristocracia trocaram de nomes de partidos e continuaram suas lutas políticas com os mesmos critérios e métodos, montando seus exércitos privados – as cabroeiras, durante as primeiras décadas deste século. Legitimavam essa violência pela cultura ancestral transplantada da Península Ibérica, baseada nos códigos de honra que, garantindo privilégios para as classes dominantes, determinavam separações quase intransponíveis entre os segmentos sociais. Segregando trabalhadores manuais, escravos, judeus, ciganos, mouros e mestiços na categoria infames, os grandes senhores utilizavam elementos dessas baixas camadas como cabras, homens em armas para a defesa de seus próprios interesses, de sua honra”. (2000. p. 19).

Seguindo o modelo dos cavaleiros “andantes”, que em sua maioria eram “cruzados” que voltavam de Jerusalém rumo à terra natal, nossos cangaceiros tinham um forte senso de honra somado a uma valentia nata e uma religiosidade fanática, misturando o cristianismo católico às crenças pagãs (fechamento de corpo, patuás e orações “fortes”), exatamente como os cavaleiros templários que foram perseguidos e tiveram sua ordem extinta em 03/04/1312 pelo Papa Clemente V, acusados de praticarem vários atos de heresia por Filipe, O belo, rei da França. (BURMAN, 1997. p. 209)

     Nenhuma das acusações foi provada e uma das teorias mais aceitas para o ocorrido é a de que Filipe estava interessado no tesouro e nos bens dos templários (assim como muitos dos “contratados” alistados nas “volantes” que combatiam o cangaço no sertão só estavam interessados no ouro e no dinheiro que “confiscariam” dos cangaceiros mortos). ”Corisco, o Diabo Loiro” e “Lampião, o rei do cangaço” eram os mais perseguidos pelas volantes justamente por serem os cangaceiros mais ricos segundo o pesquisador Antonio Amaury Corrêa de Araújo. (ARAÚJO, 1982. p. 38-40; 126)

O Doutor Amaury é o maior pesquisador sobre o Cangaço, possuidor do maior acervo de livros e fitas contendo depoimentos de ex-cangaceiros, policiais e contratados que combatiam o banditismo no sertão, além de coiteiros e sertanejos que sofreram nas mãos das duas facções em conflito, enfim uma autoridade no assunto. Em seu livro “Lampião: As Mulheres e o Cangaço”, ele faz a seguinte comparação:

 "Os cangaceiros eram os cavaleiros andantes das caatingas, tabuleiros e carrascais do nordeste. (...) O culto à valentia, entranhado no código sertanejo, perde-se nas brumas do passado, na miscigenação das raças branca, preta e na cor de cobre velho dos indígenas. Evidentemente que diferiam dos cavaleiros da idade média, que lutavam pela cruz e pelo rei, contra exércitos aguerridos de mouros, tomavam de assalto os castelos, matavam dragões, monstros, e salvavam lindas princesas que encontravam-se em torres de marfim. Esses nossos infelizes patrícios, rebentos esquecidos da região mais pobre, atrasada e sofrida de um país subdesenvolvido, na falta de exércitos mouros, opunham sua belicosidade contra as forças policiais que os perseguiam. Não encontrando castelos para assediar, invadiam cidades e vilas interioranas. Com a extinção dos dragões que lançavam fogo, andaram queimando alguns automóveis nas estradas desertas em ocasiões diferentes. Lutavam não pela cruz, mas sob os signos e enfeites que traziam nos chapéus de couro, e prestavam obediência ao Rei do Cangaço, ao monarca das caatingas." (1985. p. 318-319).

Se atualmente já é difícil sobreviver no sertão nordestino, imaginem a cinqüenta, cem anos atrás; época em que o coronelismo obrigava muitos filhos daquela terra àrida e sem lei a pegarem em armas, ora para trabalharem como jagunços em suas fazendas ora para se “alistarem” em algum bando de cangaceiros para fugirem de sua condição de “semi-escravos” ou vingarem a morte ou a “desonra” de algum parente. E as moças daquele sertão “esquecido por Deus” (termo utilizado pelos sertanejos da época) também não tinham muita esperança, seu destino era padecer nas mãos dos coronéis ou na dos cangaceiros, por isso muitas acabavam atirando-se nos braços destes de livre e espontânea vontade, pois pelo menos teriam ouro e jóias que jamais sonhariam ter se ficassem e se casassem com lavradores e vaqueiros.

“O sertanejo é, antes de tudo, um forte”. (Euclides da Cunha; Os Sertões; 1901.  p. 92).

 Se para Euclides da Cunha, a valentia e a belicosidade do sertanejo eram frutos da miscigenação das três raças, nossa pesquisa resgata as raízes guerreiras dos portugueses herdada dos vários povos que habitaram a antiga Lusitânia (ou Portus Calle, como era chamada pelos romanos) e posteriormente pelos cavaleiros templários com seu código moral e religioso que inspirou os portugueses a buscarem uma nova cruzada marítima em nome do rei e da Igreja.

 Reza a lenda que Lampião só foi abatido em Angicos porque não havia rezado o Ofício de Nossa Senhora ao levantar pela manhã como era seu costume e também dos cavaleiros das ordens monásticas da idade média (templários, hospitalários e teutônicos), que tinham na “Mãe de Jesus” sua patrona e protetora. Enfim, esses fatores genéticos e culturais aliados às condições do meio (também abordada por Euclides), transformaram nossos patrícios da região mais pobre do Brasil em verdadeiros guerreiros das caatingas.

Escrito por Bareta da Viola às 00h54
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27/10/2007


 AS LENDAS DE ORIGEM EUROPÉIA NO IMAGINÁRIO POPULAR BRASILEIRO

 

Existem muitas lendas de origem européia enraizadas no imaginário popular brasileiro. Essas lendas foram trazidas pelos portugueses desde a época da colonização. Muitas delas habitam os “causos” contados sob a luz do luar, ao ponteio da viola e ao crepitar de fogueiras desde que o Brasil estava sendo desbravado.

Uma das mais famosas é a lenda do lobisomem, de origem medieval, da época do ciclo arturiano da prosa trovadoresca . Um exemplo é o conto “O Cavaleiro Lobisomem”  do livro “Contos e lendas da Europa Medieval” do escritor francês Gilles Massardier. Essa lenda tomou características próprias em cada região do Brasil sendo contada de diversas formas de norte a sul do país. Na verdade, a figura do lobo há milhares de anos assustava o europeu, pois o mesmo era o maior predador da Europa Medieval. É lógico que nossos patrícios não fugiriam à regra de inserir na cultura colonial essas lendas vindas do velho continente.

 Em 1764, na região de Gévaudan na França, o surgimento de uma fera que, segundo testemunhas ” era bem mais alta que um lobo e possuía garras nos pés; a pelagem era avermelhada, a cabeça grande, e o focinho parecia o de um galgo; as orelhas eram pequenas e retilíneas; o peito era largo e cinzento; as costas, raiadas de preto; a boca grande tinha dentes afiados”. (Enciclopédia do Inexplicável; Jerome Clark ; Editora Makron Gold; 1997; p.158).

Este fato veio aumentar os temores campesinos sobre a existência de “lobisomens”, pois a fera apesar de perseguida pela própria guarda real francesa, foi várias vezes alvejada por disparos de armas de fogo sem ser abatida; somente dois anos depois, em junho de 1767, um caçador chamado Jean Chastrel, que “tivera o cuidado de municiar sua arma com balas de prata supondo que o bicho era um lobisomem, atirou duas vezes contra ele, e o segundo tiro acertou-o em cheio o coração, matando-o. (... ) A fera, enquanto viveu, matou 60 pessoas, e o estado gastara mais de 29000 libras, uma fortuna para a ocasião, no empenho de matá-la.” (Enciclopédia do Inexplicável; Jerome Clark ; Editora Makron Gold; 1997; p.159-160).

Evidentemente isso não aconteceu no Brasil, pois nosso maior predador é a onça, o nosso lobo guará associa-se mais a uma raposa do que um lobo propriamente dito. Visto que em todas as culturas universais existem histórias de homens que se transformam em animais, aqui não seria diferente (lembre-mos da lenda do “boto” e da “cobra Norato” ou “cobra grande” de origem indígena). Em seu livro “Contos e Lendas do Sertão” a Mestra Francisca Maria dos Santos relata duas lendas da região nordeste que têm ligação com lendas européias: “O Cavalo do Cão”, retratando o “lobisomem” na ótica sertaneja e “O Comiolo”, um “bicho papão” sertanejo que, “por mera coincidência” possui um olho só no meio da testa, assim como os ciclopes da mitologia grega. 

Também encontramos caracteres europeus na lenda das amazonas brasileiras (que deu origem ao nome " Rio  das Amazonas"  pelos espanhóis) muito semelhante às amazonas da mitologia grega e registrada pelo padre espanhol Gaspar de Carvajal que acompanhava a expedição de exploração do capitão Francisco de Orellana pelo “grande rio” no ano de 1542 (Descubrimiento del Rio Amazonas, Madri, 1894). Segundo o estudioso:

“ (...) elas vinham na frente de todos os índios, como se fossem capitães, e combatiam com tamanho ardor que os índios nem ousavam tentar fugir. Aquele que o fizesse, elas o matavam de pancadas diante de nós e esta é a razão porque os índios se defendiam tanto. Essas mulheres são muito alvas e altas. Têm cabelos longos, penteados em tranças ou coque. São tremendamente musculosas e andam nuas em pêlo, cobrindo apenas suas vergonhas. Usam arcos e flechas e são tão valentes no combate que valem por dez índios”. (Os Vikings no Brasil; Jacques de Mahieu; Livraria Francisco Alves Editora; 1976. p.11-12).

 

Reza a mitologia grega que:

 Hipólita, rainha das amazonas era filha do deus Marte, que lhe dera como sinal da sua dignidade real, um cinturão e um véu. A filha de Euristeu desejou tê-los, e Hércules recebeu a incumbência de ir buscá-los. Para obedecer às ordens de Euristeu, partiu Hércules para os longínquos páramos em que vivem as amazonas; situa-se-lhes o país para além da Ásia Menor, e bem perto dos confins do universo. Uma pintura de vaso nos mostra o herói usando a pele do leão de Neméia e armado da maça com a qual se empenha em luta contra a rainha das amazonas, que está a cavalo e segura um dardo. (Mitologia Greco-Romana; René Ménard; vol. lll; Opus Editora;1991. p.213).

Se essas lendas têm alguma relação com o imaginário popular das mitologias antigas, não podemos afirmar com exatidão. A lenda da Iara, de origem indígena também, pode ou não ser relacionada com a lenda das sereias da mitologia grega. A menos que realmente houve uma época muito anterior aos descobrimentos, em que povos europeus estiveram por aqui e deixaram indícios de sua vinda através desses mitos e lendas, tese defendida tanto pelo francês Jacques de Mahieu, que acredita e fornece vários indícios de uma tentativa de colonização viking em terras sul-americanas  muito antes dos  portugueses e espanhóis, e também pelos pesquisadores brasileiros Yuri e Vera Sanada, que acreditam ser essas “visitas” ao Novo Mundo muito mais antigas, remontando à época dos navegadores fenícios.

     O fato é que, no caso das amazonas brasileiras, houve 57 testemunhas da expedição do capitão espanhol Francisco de Orellana, e o próprio relator, o Padre Gaspar de Carvajal, além de ser digno de crédito, perdeu um olho na batalha com as guerreiras. Já dizia o renomado escritor inglês Willian Shakespere: “Há mais cousas (mistérios)  entre o céu e a terra do que supõem nossa vã filosofia”. (Hamlet)

 

Escrito por Bareta da Viola às 23h38
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O defeito está na vista.

O DEFEITO ESTÁ NA VISTA

 

Certa vez meu pai me contou uma história interessante que segundo ele, se passou com seu padrinho chamado “Seo Lauro”, também residente em Nossa Senhora das Dores (Sergipe).

Como já sabemos certas histórias tornam-se mitos, devido à divulgação das mesmas em vários locais distantes, conforme a região e a maneira como foi contada. Perdem-se nas brumas do tempo relatos que tiveram seu enredo ou seus personagens alterados. A história que irei narrar é uma dessas “histórias” difundidas em várias regiões do Brasil de maneiras diferentes cuja origem é na maioria das vezes desconhecida. Mas, retornemos à narrativa de meu pai...

“Seo Lauro” era um boêmio inveterado, jogador de baralho nato, que, segundo relatos de testemunhas (e do próprio afilhado), ganhou muito dinheiro no jogo, porém, perdeu mais fácil ainda com a “mulherada”, que sempre foi o seu ponto fraco.

Papai adorava “colar” no padrinho quando este estava “atracado” no baralho; Sua generosidade quando ganhava no jogo fazia a felicidade do afilhado, meu pai ganhava dinheiro e até mesmo animais que lhe eram presenteados por “Seo Lauro”.

Num determinado dia, após uma noite de jogatina e com a carteira estufada, “Seo Lauro” se deparou com um cigano que estava vendendo uma bela mula de carga, muito bem alinhada e pela qual demonstrou grande interesse; Após verificar os dentes e os cascos, comentou com o cigano que realmente era um animal magnífico.

- O defeito está na vista “doutor”, como pode ver os cascos estão em excelente estado e os dentes são perfeitos; Num raio de vinte léguas não existe animal igual.

- Não exagere rapaz, está querendo é vender seu peixe mais caro.

- Preço é caro não senhor, o animal vale! Como o senhor mesmo pôde ver: O defeito está na vista!

Animado com a oportunidade de adquirir um bom animal por um preço melhor ainda, encerrou-se a discussão; Acertaram o valor (que Seo Lauro achou até barato), e o tal cigano, assim que pegou o dinheiro nas mãos, virou um raio no meio da estrada, correu como se fosse vaqueiro atrás de boi desgarrado.

- Povo esquisito esses ciganos, só vivem correndo “feito doidos”!- comentou, estranhando a atitude do cigano.

Ao iniciar a marcha em direção a sua casa, já nos primeiros metros a mula tropeçou, após mais alguns metros, outro tropeço; Achando aquilo esquisito, “Seo Lauro” parou para averiguar se a mesma não havia machucado a pata, mas nada encontrou que pudesse justificar aquilo; Muitos metros depois (e após muitos tropeços também), “Seo Lauro” reparou que a tal mula usava um “tapa-olho” mesmo não estando puxando carroça alguma para seu antigo dono (fato que não havia sido reparado antes da compra); Muito cismado e já praguejando, suspeitando de um possível golpe do cigano, retirou o “tapa-olho” do pobre animal, e constatou que o mesmo realmente não havia mentido, pois “o defeito estava na vista”: a pobre mula era cega...

Escrito por Bareta da Viola às 00h53
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Fogo-Corredor

O “FOGO-CORREDOR”

 

Um fenômeno muito conhecido no interior do Brasil, principalmente no Nordeste, são certas “luzes” ou “bolas-de-fogo” (como relatam as testemunhas), chamadas em certas regiões de “Boitatá”, “Fogo-fátuo” ou “Fogo-corredor” (como é conhecido em Sergipe); Essas “bolas-de-fogo” percorriam o céu numa velocidade incrível, ora aparecendo muito próximas, ora muito distantes, por vezes batendo umas nas outras soltando faíscas.

Estudiosos modernos relacionam a aparição dessas luzes com OVNIS (Objetos Voadores Não Identificados), justamente pelo fato da região ser rica em minérios, principalmente urânio; A Ufologia, ciência que estuda esses fenômenos, desmistifica muitas crenças populares criando outras, visto não haver um reconhecimento oficial da existência dos mesmos por parte das autoridades.

O fato é que o sertanejo aproveitava-se de tais fenômenos para criar lendas e teorias sobre suas origens. De acordo com relatos de meus familiares, se um homem fornicasse com sua comadre (fato inadmissível pela tradição católica), ambos se transformariam no “Fogo-corredor”, assombrando a população sertaneja durante a noite. Em outras regiões, principalmente no Sudeste, acredita-se que a mulher que comete o pecado da fornicação com um padre, é amaldiçoada a se transformar em “mula-sem-cabeça”, assustando os viajantes noturnos. Diga-se de passagem, que com tais lendas e superstições, as sertanejas pensavam duas vezes antes de traírem os maridos.

Meu avô não acreditava nos relatos do povo; Certa vez ao sair de casa para negociar couro de boi com catingueiros da região, foi advertido por minha avó para que não retornasse à noite, pois o povo estava sendo perseguido pelo tal “fogo” naquela região.

_ Isso é “conversa do povo”, Valda! Tenho medo dessas coisas não!

_ Plácido, Plácido... Aonde tem fumaça, tem fogo... Não custa evitar...

-- Deixa de bestagem, que eu já to indo!

 Vovô era administrador do armazém de couro de “Seo Flóro”, localizado em Dores, portanto o responsável pela compra de couro para o mesmo nos interiores. O único problema dessas andanças pelas fazendas é que meu vovô gostava de tomar umas “biritas” com os fazendeiros após efetuar a compra e geralmente voltava tarde da noite. Naquela época, negociava-se tanto o couro de animais de corte (bois e cabritos), como de animais selvagens (cobras, onças e jaguatiricas); A honestidade de meu avô era tanta que, segundo testemunhas, “Seo Flóro” confiava mais nele do que nos próprios filhos; Meu pai, herdeiro dessa honestidade, orgulhava-se em dizer que “nunca havia recebido uma carta de cobrança em toda a vida”, afinal era “filho de Plácido”. Recordo-me que, em 1992 após sofrer um aneurisma cerebral e ficar internado na UTI (pouco antes de falecer), sua primeira reação ao receber visitas foi pedir que pagassem algumas contas que já estavam para vencer (fato testemunhado por mim e por seu compadre Francisco Justino da Silva), tamanha a sua honestidade e o dever de honrar o nome de meu avô.

Carregando consigo o dinheiro para a compra do couro, meu avô dirigiu-se para algumas fazendas com as quais era acostumado a fazer negócios e retornou muito tarde, montado em seu cavalo chamado “Corisco”.

Em determinado trecho da estrada, já bem próximo de Dores e com a lua já alta, “Corisco” resfolegou, inquieto com alguma coisa, pressentindo perigo; Diz a crença popular que animais e crianças conseguem enxergar (e pressentir) “coisas do mundo invisível” que nossos olhos céticos e materialistas não conseguem. De repente meu avô percebeu um “clarão” estranho no céu e, ao virar o rosto para trás avistou duas enormes “bolas de fogo” vindo em sua direção; esporeou seu cavalo e galopou como se estivesse sendo perseguido pelo próprio demônio; reparou que as “bolas-de-fogo” ora se encontravam muito próximas, batendo uma na outra soltando faíscas, ora desaceleravam, mantendo certa distância, como a zombar daquele simples mortal que ousara duvidar de sua existência. O “Fogo-corredor” o acompanhou até próximo da entrada de Dores, desaparecendo misteriosamente da mesma maneira como surgiu.

Ao adentrar em casa apressado e ofegante foi indagado por minha avó:

_ Que aconteceu Plácido, por que esse aperreio todo?  

_ O “Fogo-corredor” Valda! Ele correu atrás de mim!

-- Eu te avisei pra não duvidar das histórias do povo. Nunca mais pare pra tomar cachaça com os fazendeiros e deixe pra voltar de noite.

Acho que no fundo vovó até gostou do susto que o “fogo-corredor” deu em meu avô, pois daquele dia em diante, nunca mais ele retornou das fazendas com a lua alta.

 

Nota: Essa história me foi contada por meu pai José Plácido Souza, e confirmada por meus avós Plácido Alves Souza e Valdira Vieira Souza.

Escrito por Bareta da Viola às 00h47
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Bareta da Viola - release

Violeiro, cantor e compositor de São Bernardo do Campo; Formado em Letras, é um ferrenho defensor da Cultura e do Folclore brasileiros; Amante de livros e música além de filmes épicos e de aventura; Já disputou alguns festivais de música sertaneja obtendo boas colocações : 2º lugar no Festival de Música Sertaneja do Jardim Silvina (São Bernardo do Campo) realizado em 30/10/2005 e 4º lugar no Festival de Música Sertaneja Inédita em Igaratá (interior de São Paulo) realizado em 16/09/2006; Ministra palestras sobre Cultura Brasileira e Folclore, pesquisador de várias mitologias, está escrevendo um livro sobre mitos e lendas do sertão sergipano (terra de seu pai e avós).  Tem como principal característica uma voz forte e um repertório bem variado, interpreta além da música de raiz, sambas e serestas de cantores renomados como Altemar Dutra, Francisco Alves, Orlando Silva, Nelson Gonçalves e Vicente Celestino (seu maior ídolo); Já se apresentou em diversos bares e restaurantes do ABC,  interior de São Paulo e Minas Gerais.  

Contato para Shows 93967185.

 

e-mail: baretadaviola@uol.com.br     Fotoblog: baretadaviola.fotoblog.uol.com.br

 

Escrito por Bareta da Viola às 00h22
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