Em todas as mitologias do mundo existem histórias de homens que se transformam em animais ou feras sobrenaturais como é o caso dos lobisomens. Na Europa, homens-lobos (ou lobisomens), na África homens-leopardos, o boto que se transforma em homem para seduzir as moças das vilas ribeirinhas no Amazonas e assim por diante conforme a cultura de cada região.
No Brasil a lenda do lobisomem, ou seja, de homens que se transformam em lobos foi trazida pelos portugueses na época da colonização e tomou características próprias em cada região do país. Desde tempos remotos, a figura do lobo assombrava o povo europeu por se tratar do maior predador do velho continente. Na Idade Média, uma lenda arturiana sobre um cavaleiro da távola redonda chamado Bisclavret, que se transformava em lobo nas noites de lua cheia, foi muito difundida na Grã-Bretanha e posteriormente em toda Europa (Gilles Massardier, Contos e Lendas da Europa Medieval). Em 1764, na região de Gévaudan na França, a aparição de um terrível animal conhecido como “a Fera de Gévaudan” veio aumentar o temor dos europeus e sua crença em lobisomens. Segundo testemunhas, a fera era “bem mais alta que um lobo e possuía garras nos pés; a pelagem era avermelhada, a cabeça grande, e o focinho parecia o de um galgo; as orelhas eram pequenas e retilíneas; o peito era largo e cinzento; as costas, raiadas de preto; a boca grande tinha dentes afiados”. Essa “fera” matou mais de sessenta pessoas entre junho de 1764 e 19 de junho de 1767, quando um caçador chamado Jean Chastrel, que tivera o cuidado de municiar sua arma com balas de prata, acertou-a no coração, matando-a. O estado gastara 29.000 libras, uma fortuna na época, no intuito de matá-la. Várias foram as ocasiões em que soldados e caçadores alvejaram-na sem resultado, aumentando a crença de que se tratava de um Loup-garou (lobisomem). Infelizmente a carcaça da “fera” não pôde ser enviada à Versalhes para estudos; foi enterrada devido já estar em estado adiantado de putrefação, após ter sido exibida na região (Jerome Clark, Enciclopédia do Inexplicável).
Aqui no Brasil, o nosso lobo-guará é inofensivo ao homem, pertencendo mais à família das raposas do que dos lobos propriamente ditos.
Em algumas regiões brasileiras comenta-se que se um filho for amaldiçoado pela mãe ou pelo pai, antes do nascimento, o mesmo se transformará em lobisomem; Em outras paragens, comenta-se que se um casal tiver sete filhos homens, o mais velho deve batizar o mais novo para livrá-lo da maldição, ou ainda, oferecer uma xícara de sal ao lobisomem para “quebrar o encanto”. Algumas famílias que se atreveram a não respeitar a tradição oral do povo pagaram caro pela descrença.
Conta-se que em Propriá, uma família não deu ouvidos aos apelos dos vizinhos, não batizando o sétimo filho homem; dizem que o menino chamado Pedro, ainda criança começou a se metamorfosear em “bicho”, sempre fugindo para os matos, o que lhe rendeu o apelido de “Pedro Vira-bicho”; O irmão mais velho, seguindo o conselho de pessoas mais velhas e crentes, seguiu o irmão mais novo e o sangrou no braço no momento em que estava se “transformando”, utilizando uma faca virgem “para quebrar o encanto”, livrando o mesmo da maldição.
Outro suposto lobisomem sergipano era apelidado de “Zé Grilo”, residente num vilarejo chamado Cedro de São João, próximo à Propriá; conta-se que constantemente visitava as “fateiras” nas feiras para comer os restos dos miúdos de boi; Segundo testemunhas, se achegava e dizia para as mesmas:
-- Comadre estou com as costas doendo por causa dos chutes que voismicê me deu ontem.
-- Mas eu nem lhe vi ontem, Zé! - Respondia a pobre fateira.
-- Aquele cachorro preto faminto, que voismicê chutou ontem era eu.
E assim sucessivamente ele ia assustando as pobres fateiras que ficavam cada dia mais “generosas” com os “vira-latas” supondo que algum deles poderia ser o Zé Grilo.
Em certa ocasião, estando numa sacaria de arroz, junto com Zé Grilo e mais dois companheiros, meu tio Manoel da Silva Santos (casado com minha tia Vandete), desafiou o mesmo a “se transformar” na presença de todos:
-- Olha Zé, ninguém aqui acredita nessa história que você “vira bicho”! Se é verdade, mostre pra gente então.
-- Vamos fazer assim, vocês esperam aqui, no centro da sala, que eu vou aqui atrás dessas sacas de arroz. Fiquem bem atentos, pois vai ser um negócio rápido.
Foi para trás das sacas e, num dado momento saltou no meio dos três, um “bicho preto” com a pele escura e lisa como a pele de uma foca, muito brilhosa, e saltou de volta para trás das sacas como se fosse um raio. Todos se assustaram não acreditando no que seus olhos viram. Após alguns instantes, Zé Grilo voltou em sua forma humana, rindo-se do assombro dos companheiros.
Na região de Aquidabã, segundo meu tio Manoel, havia um certo “valentão” (cujo nome foi esquecido pelo mesmo), homem bruto e de uma valentia desmedida, jagunço de uma determinada fazenda daquelas paragens; Era conhecido como “o homem que não tinha medo de nada”; costumava comentar pelas bodegas um determinado dizer seu: “Morro, mas não corro”.
Comentava-se na região que Antonio Tomaz (homem já idoso na época), se transformava em lobo nas noites de sexta-feira, percorrendo sete cidades (ou sete cemitérios, como reza a lenda). Numa sexta-feira, estavam o “valentão” e mais alguns companheiros bebendo cachaça em uma bodega quando Antonio Tomaz chegou, para constrangimento quase geral dos presentes que o temiam, por causa das lendas a seu respeito; “quase geral” justamente porque o “valentão” ao perceber que os demais se calaram com a chegada do suposto “lobisomem”, não se conteve e lançou um desafio, fazendo jus a sua fama de “cabra macho”:
-- Olha aqui seu Antonio Tomaz, não acredito nas besteiras que o povo fala a seu respeito sobre esse negócio de lobisomem! E nem sou homem de ter medo de nada nesse mundo! Se tu viras “bicho” mesmo, aparece pra mim hoje á noite que eu to doido pra saber se lobisomem sangra e pra mostrar pra esse povo que sergipano tem que ser “macho”!
-- Apois é hoje que a porca torce o rabo! Também to cansado de ouvir histórias a respeito da sua valentia, hoje veremos se você tem o “cunhão roxo” mesmo. Me espere na encruzilhada depois do cemitério na saída da cidade à meia-noite em ponto, mas veja bem... Leve todas as armas que tiver porque senão quem vai sair machucado será você!
Lançado o desafio, beberam cada qual sua cachaça e partiram para se prepararem para o “duelo”.
Houve quem comentasse que o tal “desafio” nunca aconteceria, visto tratar-se de duas lendas vivas da região: o valentão e o lobisomem.
Porém, antes da meia-noite o “valentão” já aguardava Antonio Tomaz, literalmente armado até os dentes: carregava consigo seu facão “jacaré”, seu punhal e sua “peixeira”.
À meia-noite em ponto, um silêncio sepulcral tomou conta do lugar, como se fosse “o fôlego que se toma antes do mergulho”. “Valentão” sentiu uma estranha sensação de estar sendo vigiado e por instantes pareceu ter visto um vulto a espreitar por entre a mataria.
De repente abriram-se as portas do inferno... Saltou da mata um enorme animal preto, semelhante a um cachorro, porém muito maior, urrando como onça acuada e movendo-se com incrível agilidade para o seu tamanho. “Valentão” não hesitou nem um instante, investiu contra a criatura com o facão, sem resultado aparente, pois o bicho era realmente muito veloz. O “valentão” mal podia distinguir a aparência real do animal, tamanha a velocidade do mesmo.
Em um de seus saltos, a fera o desarmou com um “sopapo”, e o jagunço por sua vez sacou o longo punhal de mais de sessenta centímetros de lâmina, muito semelhante aos utilizados pelos cangaceiros antigamente e investiu contra o bicho. O jagunço demonstrava valentia, porém isso não impediu que a fera o desarmasse novamente, obrigando-o a fazer uso de sua “peixeira”.
O “valentão” começou a demonstrar sinais de cansaço e preparou-se para fugir; Aproveitando-se de um salto da fera para dentro da mata, virou-se abruptamente e correu como se o próprio demônio estivesse em seus calcanhares. A fera, percebendo a manobra fugitiva do oponente, perseguiu-o até próximo da cidade, cravando-lhe as garras nas costas, rasgando-lhe a carne e retirando-se em seguida, satisfeita com a marca deixada no adversário.
No dia seguinte, o povo todo indagava sobre o resultado da peleja, devido uma certa “zoada” vinda das bandas do antigo cemitério. Próximo ao meio-dia, Antonio Tomaz adentrou na bodega com um sorriso cínico nos lábios, foi indagado sobre a peleja e apenas respondeu que “valentão” realmente era um homem de coragem e que o mesmo lhes mostraria o resultado do confronto. Alguns minutos depois chegou o jagunço, visivelmente cansado, abatido e irado ao ver o velho na bodega:
--Afaste-se de mim, “coisa-ruim”! Você tem parte com o “cão”! Não quero conversa com você!
-- Calma seu moço, ninguém está desmerecendo você, pelo contrário, eu estava elogiando a sua coragem, outro em seu lugar teria “borrado” as calças. Agora o seguinte é esse: tire a camisa e mostre a marca que eu lhe fiz como prova da nossa briga.
O “valentão” tirou a camisa e todos ficaram estupefatos com a enorme marca de garras riscando suas costas de cima pra baixo com se fosse feita pelas garras de uma onça.
Por muitos anos comentou-se na região sobre a imensa coragem daquele sertanejo que enfrentou um “lobisomem” e trazia nas costas a prova e o atestado de sua valentia.